Resposta rápida: A CBIC estima que a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais eleve em até 15% o custo da mão de obra na construção civil, com a hora trabalhada saindo de R$ 15,01 para R$ 16,51 e necessidade de cerca de 288 mil novos trabalhadores apenas para repor as horas perdidas. Para incorporadores, o impacto não é político: é uma variável de curva de custo que precisa entrar hoje na análise de sensibilidade do estudo de viabilidade. Empreendimento com preço de tabela travado e orçamento montado sobre produtividade constante é o mais exposto.
O que a PEC do fim da escala 6x1 muda, na prática?
A PEC 221/2019 — conhecida como PEC do fim da escala 6x1 — foi aprovada em dois turnos na Câmara dos Deputados em maio de 2026. O texto fixa jornada máxima de 40 horas semanais, garante dois dias de descanso por semana (um deles preferencialmente aos domingos) e mantém os salários integrais. A proposta seguiu para o Senado, passou pela CCJ e voltou à pauta de discussão em agosto de 2026, após o recesso parlamentar.
Do ponto de vista da engenharia de custos, o que interessa é a aritmética: menos horas contratuais pelo mesmo salário significa custo por hora trabalhada maior. Em um setor onde a produtividade é medida em homem-hora por serviço executado, essa mudança atravessa direto o orçamento analítico, o cronograma físico-financeiro e, por consequência, a margem do empreendimento.
Quanto o fim da escala 6x1 encarece a mão de obra na construção?
O estudo da CBIC, elaborado pela economista-chefe Ieda Vasconcelos com base na RAIS 2024, projeta os seguintes efeitos para o setor:
- Alta de até 15% no custo total da mão de obra da indústria da construção, cuja folha anual é estimada em R$ 155,6 bilhões — um impacto potencial adicional da ordem de R$ 20 bilhões por ano.
- Encarecimento de 10% no custo da hora trabalhada, com a remuneração média passando de R$ 15,01 para R$ 16,51 por hora.
- Necessidade de contratar aproximadamente 288 mil novos trabalhadores somente para preservar o volume de horas produtivas atual.
- Efeito mais severo sobre micro e pequenas empresas, que respondem por 98,7% dos mais de 300 mil estabelecimentos do setor.
- Pressão concentrada na habitação popular, segmento em que a mão de obra chega a representar cerca de 60% do custo da obra.
A percepção do próprio setor confirma o diagnóstico: segundo o levantamento, há consenso de 88,5% quanto ao aumento do custo de mão de obra, 84,6% quanto ao repasse ao consumidor, 82,5% quanto ao impacto na produtividade e 81,6% quanto ao alongamento do prazo de execução das obras.
O INCC já mostra pressão de mão de obra antes mesmo da mudança?
Sim — e esse é o ponto que separa a discussão política da leitura técnica. Os dados do INCC-M da FGV/IBRE mostram que a mão de obra já é o vetor dominante de alta de custo na construção:
- O índice fechou julho de 2026 em 0,62%, desacelerando frente aos 0,85% de junho.
- O acumulado em 12 meses ficou em 6,40%, abaixo dos 7,43% registrados no mesmo período encerrado em julho de 2025.
- O componente Mão de Obra subiu 0,93% em julho, acelerando sobre os 0,91% de junho.
- Já o grupo Materiais, Equipamentos e Serviços avançou apenas 0,40% no mês.
Traduzindo: enquanto materiais arrefecem, a mão de obra acelera. O custo do trabalho está subindo a mais que o dobro da velocidade dos insumos físicos. Qualquer alteração estrutural de jornada incidiria sobre uma base que já está em aceleração — não sobre um cenário estável.
Por que o risco maior está no empreendimento já lançado?
O lançamento que ainda vai ao mercado consegue absorver: o incorporador reprecifica a tabela, revisa o mix de unidades ou recalibra o padrão de acabamento. O problema está no estoque em obra — empreendimentos com preço de venda contratado, quadro de áreas registrado, memorial de incorporação averbado e cronograma fechado sobre uma curva de custo que assumiu produtividade constante.
Nesses casos, o aumento de custo não tem para onde ir. Ele consome margem, tensiona o fluxo de caixa da Sociedade de Propósito Específico e, em cenários de baixa folga, pode comprometer o cumprimento do prazo de entrega previsto no contrato de incorporação. Estudo de viabilidade sem análise de sensibilidade no item mão de obra não é estudo — é planilha otimista.
Como estressar a viabilidade: o teste de sensibilidade em mão de obra
O exercício é objetivo e cabe em uma tarde de trabalho técnico. Recomendamos o seguinte roteiro:
- Isole a parcela de mão de obra do orçamento analítico, separando encargos, produtividade contratada (homem-hora) e serviços terceirizados por empreitada global.
- Rode três cenários: custo de mão de obra no orçado, +10% (correspondente ao efeito direto sobre a hora trabalhada) e +15% (cenário-teto projetado pela CBIC).
- Reprocesse VGV, TIR e exposição máxima de caixa em cada cenário, mantendo o cronograma físico e depois relaxando-o, para medir separadamente o efeito custo e o efeito prazo.
- Teste o repasse: qual reajuste de preço por metro quadrado seria necessário para preservar a TIR original, e se esse preço é absorvível pela praça.
- Reveja as cláusulas de reajuste dos contratos de venda e de empreitada, verificando se o índice pactuado (tipicamente o INCC) captura de fato a variação do componente mão de obra.
Se a margem evapora no cenário de +15%, o problema não é a PEC. O problema é que o empreendimento foi estruturado sem colchão de risco — e a jornada de trabalho é apenas o gatilho que expôs a fragilidade.
Quadro-resumo: os números que sua viabilidade precisa absorver
IndicadorValorFonte / referênciaAlta projetada no custo total da mão de obraAté 15%CBIC, estudo com base na RAIS 2024Custo da hora trabalhadaDe R$ 15,01 para R$ 16,51 (+10%)CBICFolha anual da indústria da construçãoR$ 155,6 bilhõesCBICNovos trabalhadores necessáriosCerca de 288 milCBICINCC-M — 12 meses até julho/20266,40%FGV/IBREINCC-M — componente Mão de Obra em julho/20260,93% no mês (vs. 0,91% em junho)FGV/IBRE
Como a RNGOMES Engenharia entra nesse processo
A RNGOMES Engenharia atua na estruturação técnica de empreendimentos imobiliários — do estudo de viabilidade técnica e econômica à documentação de incorporação imobiliária nos termos do art. 32 da Lei 4.591/64. Na prática, isso significa montar o orçamento analítico com rastreabilidade de composições, projetar a curva de desembolso sobre o cronograma físico real e submeter o resultado a análise de sensibilidade multivariável, com mão de obra, materiais e prazo tratados como variáveis independentes.
Também estruturamos o pacote documental do registro de incorporação — memorial descritivo, quadros de área conforme a NBR 12.721, convenção de condomínio, declarações de vagas e de prazo de carência — de forma coerente com os números da viabilidade. Quando o orçamento e o memorial contam a mesma história, o empreendimento chega ao cartório e ao mercado com consistência técnica defensável.
Perguntas frequentes
A PEC do fim da escala 6x1 já está valendo?
Não. A PEC 221/2019 foi aprovada em dois turnos na Câmara em maio de 2026 e tramita no Senado, com discussão retomada em agosto de 2026. Para entrar em vigor, precisa de aprovação em dois turnos no Senado e posterior promulgação, além de regulamentação da transição.
O aumento de 15% se aplica a qualquer obra?
Não uniformemente. O impacto é proporcional ao peso da mão de obra no custo total. Em habitação popular, onde esse peso chega a cerca de 60%, o efeito é bem mais severo do que em obras de alto padrão com forte participação de materiais importados e sistemas industrializados.
O reajuste pelo INCC já protege meu contrato?
Parcialmente. O INCC captura a variação de custo do setor, mas o repasse depende do que foi pactuado em contrato e do momento de aplicação. Contratos com preço fechado, sem cláusula de reajuste eficaz, absorvem o aumento integralmente na margem do incorporador.
Vale a pena refazer a viabilidade de um empreendimento já em obra?
Sim, quando há saldo relevante de cronograma. A revisão não muda o preço já contratado, mas permite antecipar necessidade de caixa, renegociar contratos de empreitada e ajustar o ritmo de vendas antes que o desequilíbrio se materialize.
Estresse os números antes de lançar
Se você tem um empreendimento em estruturação ou em obra e ainda não rodou o cenário de mão de obra 10% e 15% acima do orçado, essa é a conta que vale a pena fazer antes que o mercado a faça por você. A RNGOMES Engenharia monta o estudo de viabilidade, a análise de sensibilidade e o pacote de incorporação com o mesmo rigor técnico.
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Conteúdo produzido pela RNGOMES Engenharia. Os dados citados são informativos e provenientes de fontes públicas (CBIC, FGV/IBRE, Câmara dos Deputados e Senado Federal), sujeitos a revisão pelos órgãos emissores. Este material não constitui recomendação de investimento nem parecer jurídico.

